Capela de Nossa Senhora das Neves

Dados do Património
Nome: Capela de Nossa Senhora das Neves

Das capelas existentes na freguesia, a maior e mais importante é a de Nossa Senhora das Neves, situada em Vila Nova. A Virgem que nela se venera é padroeira tanto da sede da freguesia como do Poço. Esta evocação de Nossa Senhora tem a sua história, que se radica em Itália, sobre a qual não nos debruçaremos.
O templo fica no cimo de uma pequeno morro, em pleno centro da localidade, sobraceiro à estrada principal. É o resultado de um legado de Cosme Dias de Campos, em cumprimento de promessa testamentária. Conta a lenda que a anterior capela existente no mesmo lugar, pequena e de construção rudimentar, era desaparecia do lugar, surgindo no sopé do morro, no interior de uma pequena gruta. Tal ocorrência intrigava as pessoas, que voltavam a colocar a imagem no interior do edifício. Porém, a cena repetia-se. E só deixou de ocorrer após a construção da actual capela. Desconhece-se se a imagem a que a lenda faz referência é a que integra o espólio actual. Trata-se de uma pequena escultura trezentista, com apenas 26 cm de altura, em marfim, que representa a Virgem e o Menino. A avaliar material utilizado, será rara.
A construção da capela actual data do segundo quatel do século XVII e encerra traços arquitectónicos dignos de registo. É uma das melhores obras dos construtores regionais, possuindo riquíssima talha dourada de Barroco inicial, profusamente espalhada pelos seus três altares. Estes retábulos não são contemporâneos da construção da capela, foram instalados em finais do século XVII.
Entre 1948 e 1951, o templo beneficiou de profundo restauro, sob orientação dos serviços oficiais. Mais de meio século passado, tem sido objecto de intervenções pontuais. Seria bom que o recinto onde a capela está implantada fosse preparado de acordo com a arquitectura do edifício. Assim se preservaria esta magnifica relíquia. E, já agora, que as autoridades locais e as sucessivas comissões de festas concertem posições, para que a capela se torne mais conhecida, integrando roteiros turísticos da região da Bairrada.
No interior da capela, os pedestais do altar-mor apresentam na base baixos-relevos que, com o central, formam um conjunto de cinco. São eles: “A Anunciação”, “Creche”, “Coroação da Virgem”, “Apresentação do Menino” e “Adoração dos Magos”. As esculturas, de madeira, são da mesma data dos retábulos, tendo sido objecto, posteriormente, de nova pintura. Representam A Virgem e o Menino, em ponto grande, no trono do altar-mor; Santo António e S. Francisco de tamanho médio, nos altares laterais. Os santos Damião e Cosme encontram-se em nichos laterais.
Os retábulos a que nos vimos referindo são regularmente entalhados no tipo inicial do Barroco de finais do século XVII. Compões-nos colunas torcidas, pâmpanos, crianças e aves. O retábulo principal é formado por um só arco, sustentado por quatro colunas espiraladas. Na parte inferior, debaixo do trono figuram os cinco pedestais direitos. O arco cruzeiro é adornado apenas com almofadas corridas, mas há um desfecho feliz, ao introduzir-se em composição o arco e a cimalha, com arcos e nichos colaterais.
O púlpito encontra-se à esquerda, com acesso em escada de calcário, tal como as cantarias, rasgadas na parede a partir da porta lateral. O púlpito assenta em duas mísulas. Os balaústres, em madeira exótica, servem-lhe de resguardo. A teia do coro alto, originalmente em madeira, foi substituída por outra idêntica, mas com mistura de gesso e cimento na base, aquando da restauração. A grade em madeira torneada, que separa a capela-mor do corpo principal, sofreu na altura o mesmo tratamento.
As paredes da capela-mor são forradas de azulejo azul, com florões da transição do século XVII para o XVIII, fabricados em Coimbra. Na sacristia, existe uma escultura de uma só peça, em pedra calcária, representando Cristo crucificado, e outra, colocada em nicho, representando a virgem. Ambos remontam ao século XVII.
A frontaria da capela tem a empena cortada pela cimalha horizontal. A porta principal, rectangular, é acompanhada de pilastras, com entablamento e frontão interrompido, donde surge uma cruz. Ao lado, dois postigos. Na linha do coro, há dois nichos com esculturas de calcário, pequenos e vulgares, representando S. Roque e um santo monge, cujo nome se desconhece. Entre os dois, existe uma fresta. A frente segue a linha ondulante, ostentando, perto do vértice, dois rótulos com mascarões, que por sua vez se firmam em cunhais, em pirâmide. Nas fachadas laterais, há portas travessas de verga direita e cornija, dominada de alta fresta, ao contrário das da capela-mor, que são pequenas e deitadas.
O legado de Cosme Dias de Campos
Para melhor apreciamos esta bela ermida, narramos a traços largos, a sua origem, da qual subsistem referências por diversas obras. Conta-se que Cosme Dias de Campos, presumivelmente órfão de pai e mãe, servia, ainda moço, na casa de um senhor, padeiro de profissão. Como era uso, ao pequeno Cosme competia fazer a distribuição do pão em Vila Nova. Certa vez, sentiu fome e não resistiu a tentação de se saciar com o alimento ali mesmo à mão. Satisfez o corpo, mas ficou com o espírito abalado. Sabendo do carácter severo do seu patrão, teve receio de que o admoestasse e, possivelmente, da punição que o esperava. A perspectiva paralisou-lhe os movimentos e, chorando, decidiu não regressar ao trabalho.
Mercadores espanhóis, que com relativa frequência por aqui passavam a vender os seus produtos, apiedaram-se do miúdo, acarinharam-no e propuseram-se levá-lo com eles. O rapaz viajou então até terras de Andaluzia, em Espanha. Por lá andou e se fez homem. Emigrou para as Américas, em busca do desafogo de vida que tardava a sorrir-lhe. Terá dito que, se enriquecesse, regressaria as origens e mandaria erigir um templo em honra de Nossa Senhora das Neves. Anos volvidos, já casado com uma sevilhana, empreendeu a viagem de regresso à terra, para cumprir a promessa, já que a sorte tinha batido à sua porta. Porém, no altar mor, foi acometido de doença subira e veio a falecer.
Do seu testamento posteriormente tornado público, constava a promessa feita, mas sobremaneira aumentada. Nele se determinava a construção de tês templos em honra de Nossa Senhora das Neves: um em Vila Nova, povoação que tinha marcado o seu destino; outro em Sevilha, terra natal da sua esposa; o terceiro no Pereiro (Anadia), que se presume tenha sido o local de nascimento dos seus progenitores.
Á singular história alude Nogueira Gonçalves, ao afirmar que deixou diversos legados pios, “instituindo capelas de missas em Sevilha e nos franciscanos de Coimbra, subsídios a pobres, a órfãs e estudantes de família; mandou construir a capela e dota-la conforme ao costume e direito do tempo”. Sabe-se que a capela dispunha de terrenos anexos – o seu passal – cujo limite era a Vacariça, dos quais se retiravam produtos agrícolas, para benefício dos mais desfavorecidos.
Os restos mortais de Cosme Dias de Campos, que segundo Nogueira Gonçalves faleceu no princípio do século XVII, foram trasladados de Sevilha para a capela-mor do tempo de Vila Nova de Monsarros, ficando, no entanto, sem epitáfio. Este autor admite que sejam suas as ossadas descobertas no plano alto do altar-mor, do lado direito, aquando da última grande restauração da capela, entre 1948 e 1951. 
Esta versão difere um pouco, embora no essencial siga a mesma linha, da vertida a 11 de Maio de 1721 pelo Padre Fernando F. Vasconcelos, nas suas “Notas informativas”, retiradas dos arquivos paroquiais de então. Nelas se lê textualmente: “No lugar de Vila Nova de Monsarros existia uma capela de evocação a Nossa Senhora das Neves, fundada pelo povo, cuja “fabrica” era pelo mesmo dirigida. Mais tarde, pelo ano de 1600 e por instituição testamentária de Cosme Dias, homem que do mesmo lugar foi para a Índia, reedificou a aludida capela e nela instalou uma capelania com missa… (palavras ilegíveis) para o que em seu testamento o dito Cosme Dias mandou… (palavra ilegíveis) que se desse de seus bens a quantia de vinte escudos a um rapaz que estudasse até ser clérigo religiosos ou até tornar outro estado, preferindo sempre os de grau próximo a ele no sangue. Dessem mais dos seus bens a quantia de vinte escudos a quatro mil reis a uma moça pobre para o seu casamento preferindo sempre a de grau mais próximo a ele, no sangue. Mais deixou que dos seus bens se pagasse, cada ano, vinte mil reis deste modo: a terça parte para se fazer a festa de Nossa Senhora das Neves no dia 5 de Agosto; o outro terço para missa pelas almas do purgatório; a terça parte restante para se distribuir pelos clérigos que no dia 5 de Agosto, na véspera e no dia seguinte dissessem missas pelas almas do purgatório. Deixou mais: que na dita capela de fizessem em honra de Nossa Senhora das Neves. E não parou por aqui: que se desse de esmola aos pobres quarenta mil reis de pão e para que todos os legados pios fossem reforçados com rendimentos bastantes. Cosme Dias de Campos faleceu quando vinha para Portigal, tendo determinado que fosse sepultado na cidade… (ilegível) do reino de Castela. Foi sepultado no convento de S. Francisco na capela de Cristo da dita cidade donde se foram buscar seus ossos para a capela de Nossa Senhora das Neves, onde estão sepultados. Faleceu à (sic) 110 anos. Isto é, em 1611”.
Pinho Leal também faz referências à aventura vida de Cosme Dias de Campos. Segundo afirma, em 1612, o seu irmão foi a Sevilha buscar as suas cinzas, depositadas na capela de Nossa Senhora das Neves, aproveitando para trazer quatro imagens – de Santo António, S. Francisco, S. Cosme e S. Damião. Entre os legados pios que instituiu, este autor assinala a capela do Convento de S. Francisco da Ponte, em Coimbra, “que o rio submergiu”: Cosme Dias de Sousa deixou à capela de Vila Nova, sustenta ainda, “muitas e boas jeiras de terras” no campo de Coimbra, “alguns casais, foros e terras na cidade de Coimbra, tudo comprado com o dinheiro do testador”.
A restauração da capela
A actual capela de Nossa Senhora das Neves terá beneficiado, ao longo dos quatro séculos da sua existência, de vários restauros, já que os seus  belíssimos altares e o tipo de construção a tal obrigavam. Foi submetida entre 1948 e 1951 a uma profunda restauração. Um dos motivos da intervenção foi o estado em que se encontrava a estrutura. As causas da degradação radicavam no desgaste do tempo, mas principalmente no impacto doa petardos que estoiravam junto aos alicerces, quando, durante as festas, se deflagrava o “castelo”, um dos números de fogo preso apresentado, que entretanto deixou de fazer parte dos festejos. As brechas nas paredes da capela e a degradação a fazer parte dos festejos. As brechas nas paredes da capela e a degradação a que tinha chegado o telhado e a talha dourada apressaram a restauração.
Um grupo de pessoas de boa vontade deitou mãos à obra, através de uma comissão, proposta por Francisco Gomes Porto e Luiz Gonzaga Ferreira, que viria a transforma-se em Comissão Administrativa, aprovada em acta de 11 de Setembro de 1948. Apesar de a comissão ser formada predominantemente por pessoas da terra, integrava Francisco Gomes Porto, natural de Coimbra, que fez de Vila Nova a sua terra adoptiva, por casamento com Natália Rodrigues, celebrado precisamente na capela, no ano de 1932.
A escola revelou a sua predilecção pelo templo dedicado à Virgem, de quem era especial devoto, expressa no facto de a 16 de Agosto de 1935, criar uma associação, da qual faziam parte outras personalidades da terra passou a aceitar sócios com quotas diferenciadas em função do sexo. Assim nascia o grupo que viria a impulsionar o restauro da capela.
Graças ao dinamismo de Francisco Gomes Pinto e aos seus conhecimentos do mundo industrial, foram superadas dificuldades e ultrapassada a complexidade burocrática da iniciativa. Tratando-se uma obra de índole religiosa, foi necessário envolver a comissão eclesiásticas especializada na matéria, que a autorizou e cuja evolução acompanhou. O próprio Estado contribuiu com um subsídio da 100 mil escudos.
O restauro da capela teve em Dezembro de 1948 e terminou em Agosto de 1951. Intervieram douradores de Braga, cinzeladores, carpinteiros e pedreiros, entre outros profissionais. Os douradores procederam à limpeza dos retábulos e à reposição dos dourados e restituição ao brilho inicial. Já os cinzeladores e carpinteiros tiveram de restaurar a substituir algumas mísulas e balaústres, aproximando-os o mais possível do aspecto original.
Como muitos dos azulejos se encontravam irremediavelmente perdidos apenas a capela-mor foi revestida com os ori